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Empresas tentam convencer estudantes a estudar tecnologia

02/10/2012 – “O professor disse que é possível ganhar muito dinheiro na computação”, disse Leandre. “E que isso poderia me ajudar no futuro”.

NICK WINGFIELD – DO “NEW YORK TIMES”

O professor em questão, Steven Edouard, sabe bastante sobre o tema. Quando não está dando aulas sobre ciência da computação, o que faz como voluntário quatro vezes por semana, ele trabalha na Microsoft. É um dos 110 engenheiros de empresas de tecnologia que fazem parte de um programa da Microsoft cujo objetivo é atrair alunos de segundo grau para a ciência da computação, o que lhes permitiria seguir carreira no ramo.

Ao fazê-lo, a Microsoft está adotando uma abordagem incomum para enfrentar a escassez de formandos em ciência da computação –uma das questões mais graves para o setor de tecnologia, bem como para a economia norte-americana em geral.

É provável que surjam 150 mil postos de trabalho em computação a cada ano, até 2020, de acordo com uma análise de projeções federais realizada pela Association for Computing Machinery, uma sociedade profissional de pesquisadores da computação. Mas, a despeito do entusiasmo quanto a celebridades da tecnologia como Mark Zuckerberg, do Facebook, menos de 14 mil universitários norte-americanos se graduaram em ciência da computação no ano passado, de acordo com a Computing Research Association. E o mercado de trabalho mais amplo continua fraco.

“As pessoas não conseguem emprego, e temos postos de trabalho não preenchidos”, disse Brad Smith, diretor jurídico da Microsoft e responsável pelos esforços filantrópicos da companhia, em entrevista recente.

MÃO DE OBRA

As grandes empresas de tecnologia se queixam há anos de escassez de talentos técnicos, um problema que elas vêm tentando resolver por meio de lobby pelo afrouxamento das regras de imigração, a fim de acomodar mais engenheiros estrangeiros, e patrocinando competições tecnológicas para encorajar o interesse dos estudantes pelo setor.

O Google, por exemplo, realiza um acampamento de programação a cada verão para alunos que concluíram a oitava série, e patrocina um programa chamado CS4HS, sob o qual professores de segundo grau ganham conhecimento em ciência da computação em oficinas promovidas por universidades locais.

Mas a Microsoft está enviando seu pessoal à linha de frente, encorajando-os a assumir o compromisso de lecionar um curso de ciência da computação para alunos de segundo grau por todo um ano letivo. Os engenheiros da companhia ganham um modesto estipêndio pelo tempo que dedicam às aulas, e dão pelo menos duas aulas de duas horas por semana; em certos casos, o número de aulas chega a cinco.

As escolas organizam as aulas para seu primeiro horário do dia, para evitar interferir demais com a escala dos engenheiros da Microsoft, que muitas vezes só chegam à empresa no final da manhã.

O programa foi iniciado por iniciativa de Kevin Wang, engenheiro da Microsoft que fez mestrado em pedagogia em Harvard. Em 2009, ele começou a dar aulas de ciência da computação como voluntário em uma escola de segundo grau de Seattle, antes de seu horário de trabalho. Depois que os executivos da Microsoft descobriram o que ele estava fazendo, decidiram oferecer assistência financeira ao esforço –conhecido como Educação e Alfabetização Tecnológica na Escola, ou Teals, na sigla em inglês. Wang recebeu autorização de seus superiores para comandar o programa em período integral.

Agora, ele abarca 22 escolas na região de Seattle e se expandiu a mais de 12 outras escolas em Washington, Utah, Dakota do Norte, Califórnia e outros Estados, neste ano letivo. A Microsoft deseja que outras grandes empresas de tecnologia apoiem o esforço, para que ela possa ampliar o número de engenheiros externos envolvidos.

Neste ano, apenas 19 dos 110 engenheiros participantes não são funcionários da Microsoft. Em alguns casos, o programa reuniu voluntários de empresas que dedicam seu tempo a concorrer umas contra as outras no mercado.

“Creio que a educação e trazer mais pessoal para o setor seja algo com que todas as companhias de tecnologia concordam”, disse Alissa Caulley, engenheira de software que, em companhia de um voluntário da Microsoft, dá aula de ciência da computação na Woodside High School, em Woodside, Califórnia.

APRENDENDO NA PRÁTICA

Embora a ciência da computação seja uma matéria capaz de intimidar, a Microsoft tentou conectá-la a tecnologias que a maioria dos estudantes usa em suas vidas diárias. Na Rainier Beach High, recentemente, Peli de Halleux, um engenheiro de software da Microsoft, deu aula sobre o desenvolvimento de programas para celulares.

Os estudantes estavam concentrados nos celulares, fornecidos pela Microsoft. Foram instruídos a criar programas que executassem funções simples, por exemplo tocar uma canção aleatória quando os aparelhos fossem sacudidos.

Leandre, que fez o curso de programação de celulares de Halleux no ano passado e neste ano está na turma avançada do curso de Eduoard, mostra com orgulho um jogo simples que ele criou, Sun Collector, no qual os jogadores inclinam o aparelho para escapar de bolas pretas e atingir grandes bolas amarelas.

“Eu não fazia ideia do que está por trás desses jogos”, disse. “Mas quando você começa a aprender, eles são bem simples de entender”.

Uma das tendências mais alarmantes para o setor de tecnologia vem sendo o declínio de interesse dos estudantes pela ciência da computação, nos dez últimos anos. Embora o número de diplomas de graduação em computação tenha crescido nos últimos anos, o número do ano passado ainda fica 34% abaixo do pico de formandos, atingido em 2004, de acordo com a Computing Research Association.

O interesse dos estudantes por esse campo começou a cair depois da implosão do setor de Internet, uma década atrás. Houve recuperação nos últimos anos, mas ela vem sendo lenta.

A maioria dos educadores acredita que, para que os estudantes se entusiasmem pela ciência da computação, é importante que seja apresentada a eles o mais cedo possível. Mas o apoio ao tema nas escolas vem caindo devido à falta de verbas. Em quase todos os Estados norte-americanos, a ciência da computação é matéria optativa, e não parte do currículo básico.

MENOS INTERESSE

A porcentagem de graduados que obtiveram créditos com cursos de ciência da computação caiu de 25% em 1990 a 19% em 2009, o que a faz a única disciplina a registrar queda nos campos da ciência, tecnologia e matemática, de acordo com relatório do Departamento da Educação norte-americano.

O número surpreende mais ainda se considerarmos o apego dos adolescentes aos seus celulares inteligentes, tablets e contas de Facebook. Mas essa fascinação em muitos casos se relaciona à mídia e à comunicação social, e não à tecnologia. Os aparelhos atuais, de alta facilidade uso, também ocultaram dos usuários ferramentas de programação que costumavam ter mais destaque nos computadores do passado.

Edouard se formou na Universidade da Flórida em 2001 considerou se inscrever no programa Teach for America, mas também recebeu múltiplas ofertas de empregadores no ramo de tecnologia.

“Nos dias atuais, com tanto crédito educacional a pagar, é difícil optar por uma carreira no ensino”, ele diz.

Uma das maiores preocupações sobre o esforço da Microsoft é que a maior parte dos envolvidos tem pouca experiência de ensino. Para cumprir com as normas de licenciamento das autoridades educacionais e ajudar os engenheiros a superar dificuldades práticas de ensino, por exemplo administrar o comportamento de adolescentes desordeiros, um professor regular também está presente na sala de aula durante o curso.

Um dos preceitos do programa é que os engenheiros da Microsoft precisam ensinar os professores, e não só os alunos, para que os primeiros possam um dia dar aulas interessantes sobre ciência da computação.

“Estamos levando a garotada mais longe do que eu poderia”, diz Michael Braun, professor na Rainier Beach High que trabalha com os voluntários da Microsoft.

Continua a haver tropeços, entre os quais tensões entre alguns dos professores regulares e os engenheiros da Microsoft designados para trabalhar com eles, de acordo com diversas pessoas envolvidas no programa, que pediram que seus nomes não fossem revelados porque não desejam causar a impressão de que estão criticando a Microsoft.

Sarah Filman, administradora de programas na Microsoft, concluiu o curso intensivo de formação de professores que a empresa oferece aos voluntários, e preparou uma longa apresentação em PowerPoint para o curso que lecionou em Seattle no ano passado. “É assim que a Microsoft age”, disse.

Mas tão logo ela apagava as luzes da classe no início da aula, para a apresentação, os alunos perdiam a concentração, e por isso ela teve de mudar seus métodos. “Tive de abandonar boa parte do que havia preparado previamente”, ela conta.

Para os alunos na região de Seattle, a Microsoft tenta despertar o entusiasmo pela tecnologia ao organizar excursões de campo à sua sede e informar os estudantes sobre as carreiras lucrativas que os aguardam. Os alunos da Rainier Beach High que visitaram a Microsoft no ano passado continuavam entusiasmados com a visita, dias mais tarde.

“Para mim, foi um momento revelador”, disse Dwane Chappelle, diretor da Rainier Beach High. “Eu senti que tínhamos de descobrir como envolver mais alunos”.

Wang, o fundador do programa, disse que um profissional do setor de tecnologia pode servir como poderoso exemplo, ao dedicar um ano a dar aulas.

“Os jovens se veem no lugar daquela pessoa”, disse Wang. Afinal, acrescentou, “a chance de que entrem em uma faculdade e se formem em ciência da computação são exponencialmente maiores do que as de conseguir vaga em um time profissional de futebol americano”.

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